Bloodborne

Análise originalmente publicada no Save Game em 06/05/15

http://www.savegame.com.br/bloodborne/


Bloodborne - Capa Review - atualizada

Nos primeiros minutos da série do Netflix do Demolidor (recomendo fortemente que todos assistam), Matt Murdock faz a seguinte declaração sobre seu pai, Jack Batalhador Murdock. “Ele era um lutador. Um boxeador. Perdeu mais que venceu, mas ele aguentava uma surra. Nunca foi nocauteado. Era derrubado, claro, mas sempre se levantava. Sempre perdeu de pé.

Essa descrição de seu pai consegue, em menos de cinco minutos, passar uma mensagem para quem está assistindo sobre quem é o guardião de Hell’s Kitchen e o que o espectador pode esperar dos treze episódios desse seriado.

Coincidentemente, assim também é Bloodborne, a nova produção da From Software e o sucessor espiritual da série Souls (Demon’s Souls, Dark Souls e Dark Souls II), que te ensina nas primeiras horas de jogo que você morrerá muitas, muitas vezes mesmo. Mas a cada vez que os dizeres “YOU DIED” aparecerem em letras garrafais na tela, você aprenderá uma lição e irá melhorar suas habilidades para se tornar um caçador mais preciso e letal.

Cada vez que tombar lutando, perdendo assim seus Blood Echoes (itens que funcionam como a moeda corrente do jogo e servem para comprar itens e melhorar suas habilidades), basta se erguer novamente para encarar uma nova luta e enfrentar o chefe que te eliminou sem a menor cerimônia ou aquele inimigo ardiloso que te pegou de surpresa em um ataque furtivo.

Mesmo que caia, se levante, sacuda a poeira e parta para o próximo round.

No início, logo após personalizar seu aventureiro, podendo até escolher seu preparo físico e optar por criar uma personagem do sexo feminino, você deve decidir qual é a origem do seu avatar. Ele (ou ela) veio de uma origem humilde, é um soldado veterano de guerra ou teve um passado sombrio? Além de fornecer alguns benefícios nos status, essa simples decisão foi o suficiente para que eu percebesse que a narrativa nesse título não seria algo facilmente digerido como a maioria dos outros games que temos por aí. Confesso que me lembrou um pouco The Evil Within por inovar na forma como o enredo é desenrolado.

O cenário em que a aventura é ambientada representa mais do que uma simples localização. Yharnam é lar de casas, construções e castelos belíssimos, mas a arquitetura nativa que enche os olhos também serve para esconder o horror que assola o local. A cidade e os cenários são personagens vivos e partes essenciais nos eventos dessa tragédia.

Uma praga foi disseminada, pessoas raivosas com tochas, ancinhos e até rifles estão nas ruas. Se multidões enraivecidas fossem as únicas ameaças presentes nos becos escuros, os caçadores não teriam tanto trabalho. Infelizmente para esses aventureiros (você incluso), humanos representam a menor das ameaças. O bestiário de Bloodborne é extremamente vasto e possui claras influências à obra de H. P. Lovecraft, mas os monstros vão além de uma única referência.

E deve-se sempre estar atento e nunca subestimar essas criaturas porque até mesmo o mais simples oponente pode te matar se você não estiver concentrado. Por mais injusto que possa parecer, morrer para um monstrinho “inferior” e perder todo seu progresso caso não consiga chegar até o local em que pereceu e recuperar suas almas, a culpa é toda sua em se achar superior e não respeitar seu adversário.

Mais uma vez os ensinamentos de Sun Tzu, autor da obra milenar A Arte da Guerra, são visivelmente aplicáveis nos games. “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas…

O fio narrativo é sutil e não é exposto ao jogador de forma tradicional com animações. As cutscenes estão presentes, mas a parte mais suculenta (ou putrefata, se preferir) da história é contada em detalhes, seja nas descrições dos itens que fornecem informações importantíssimas ou em breves diálogos dos NPC’s que você encontra pelo caminho.

Por falar em itens, o seu inventário será seu principal guia para desvendar Yharnam e caso se sinta perdido ou incapaz, não hesite em pedir ajuda para outros jogadores através de uma ferramenta desbloqueada ao longo de sua aventura. Mas fique atento pois nem sempre a pessoa que adentrará seu jogo será amigável. Então, torça para o melhor, mas esteja preparado para o pior.

Pedir e prestar auxílio em combate, tanto na história principal como nas dungeons focadas para multiplayer, não é a única forma de interação com os outros caçadores. É possível também, através de seu diário, deixar mensagens alertando os demais de armadilhas, passagens secretas ou dicas para enfrentar um adversário mais complicado. Outras formas de interação interessantes estão na possibilidade de ver os espectros dos jogadores que morreram e “fantasmas” de mais pessoas que estão na mesma área.

Durante meu tempo com Bloodborne, a desenvolvedora chegou a lançar um patch que diminui o tempo de carregamento das telas entre as áreas do mapa, reduz o período para recomeçar após sua morte, exibe a descrição dos itens nessas telas, entre mais melhorias.

Pode parecer engraçado, mas senti que esse detalhe mudou o ritmo do jogo e fez com que não refletisse tanto após morrer. O “purgatório” da tela de loading ajudava a avaliar minha performance e tentar achar onde errei para melhorar na próxima vez. A princípio, era tomado por um sentimento de derrota, mas o gosto amargo do fracasso me incentivava a melhorar, a levantar após ter beijado a lona.

Hidetaka Miyazaki, atual presidente da FromSoftware, revelou em uma entrevista publicada no final de março que se enxergava como um jovem problemático. “Ao contrário da maioria das crianças no Japão, eu não tinha um sonho.

A carreira de Miyazaki na desenvolvedora começou em 2004 quando ele foi contratado para trabalhar como programador. Sua trajetória de sucesso, alcançando o cargo de presidente em pouco mais de dez anos é inspiradora, mas a jornada até o topo da empresa estava lotada de armadilhas. Se juntar em um projeto que estava afundando, receber um feedback negativo na Tokyo Game Show e um início fraco em vendas são apenas alguns dos obstáculos que o atual presidente de uma das principais desenvolvedoras orientais e sua empresa conseguiram superar.

De alguma forma, enxergo que o caminho profissional que o diretor de Demon’s Souls e Dark Souls trilhou e sua escolha por criar esse tipo de experiência é representado exatamente em Bloodborne. Algo sincero, mas ao mesmo tempo brutal. Uma experiência difícil, mas extremamente recompensadora.

Bloodborne te instiga a aprender mais do que simplesmente ajustar suas habilidades com o DualShock 4. Aqui você terá a oportunidade de absorver um básico de educação financeira para não se arriscar com ações desconhecidas e tratar sua receita com carinho, sempre voltando ao Hunter’s Dream para investir suas almas e melhorar seu principal patrimônio (você).

Auto-conhecimento é mandatório. Compreender completamente o funcionamento de suas habilidades – ataque rápido, ataque forte, golpes carregados, esquiva, parry, itens que curam ou melhoram seu ataque, etc -, como melhorá-las, investigar e estudar seu ambiente também é imprescindível. Outra lição importantíssima é aceitar que errar faz parte do aprendizado e você deve se tornar resiliente para superar os desafios, que só aumentam conforme a evolução do game.

Esse título não é para todos e exige um certo preparo para ser apreciado, mas acredite em mim quando digo ao adaptar as palavras de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena quando os Blood Echoes não são pequenos.

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