A vida após Valiant Hearts

Artigo originalmente publicado na Ivalice em 22/09/15

http://www.ivalice.com.br/artigo/a-vida-apos-valiant-hearts/


Entre os dias 17 à 20 de setembro aconteceu na capital japonesa a edição anual da Tokyo Game Show (TGS), a equivalente oriental da Electronic Entertainment Expo. Além de gigantes como Microsoft, Sony, Square Enix entre outros, um dos participantes da feira foi a Digixart. Esse estúdio, único representante independente da França, foi inaugurado em abril desse ano pelo casal Yoan FaniseAnne-Laure Fanise.

Por que não se tornar um indie de verdade depois de ter sido chamado de ‘indie falso’ durante dois anos?

Yoan passou 14 anos trabalhando na Ubisoft sendo que durante seus últimos dois anos na empresa atuou como diretor no premiado Valiant Hearts: The Great War. Alguns meses após receber um BAFTA (premiação concedida pela academia britânica de filmes e televisão) na categoria de propriedade original, Yoan tomou a decisão de trocar a Ubisoft para começar do zero e fundar um estúdio independente.

Ele compartilhou alguns dos motivos que o levaram escolher uma abordagem mais arriscada no desenvolvimento de jogos em uma entrevista publicada no Gamasutra em abril. Logo no início do texto, ele brinca. “Por que não se tornar um indie de verdade depois de ter sido chamado de ‘indie falso’ durante os meus dois anos em Valiant Hearts?

A mensagem apresentada no primeiro vídeo da Digixart, uma espécie apresentação da linha criativa da empresa (veja abaixo), é clara e deixa explícito o posicionamento dos desenvolvedores. O objetivo do estúdio é criar títulos “significativos” se opondo aos que primam pela máxima quantidade de frames por segundo e resolução mais realista possível.

Uma mudança bem drástica se levarmos em consideração o currículo de Fanise na Ubisoft. Além de Valiant Hearts, o diretor criativo e co-fundador da Digixart trabalhou como diretor de áudio das batalhas navais em Asssassin’s Creed III, diretor de áudio em Rayman Raving Rabbids, designer de som em Beyond Good & Evil, entre outros cargos na produção sonora.

Ser selecionado para Tokyo Game Show é uma grande recompensa para esses meses de trabalho duro

A pergunta de abertura da minha entrevista com Yoan Fanise foi um questionamento sobre como sua equipe passou esses cinco meses após a fundação da Digixart. “Nós estivemos ocupados, quero dizer loucamente ocupados, conseguimos montar a equipe e desenvolver o protótipo do jogo muito rapidamente. Ser selecionado para Tokyo Game Show com apenas cinco meses depois da criação da Digixart é uma grande recompensa para esses meses de trabalho duro.

O protótipo que Fanise menciona é o de Lost in Harmony, primeiro jogo desenvolvido pelo estúdio que acompanha o garoto Kaito andando de skate enquanto carrega a menina Aya em suas costas. O time levou um protótipo jogável até Tokyo para ter um feedback das pessoas durante a TGS.

Os brasileiros vão se sobressair com seu senso de música

Segundo Fanise, a jogabilidade pode ser descrita da seguinte maneira. “O gameplay consiste em tocar as estrelas como um pianista e mover os personagens como um violinista ou um maestro de orquestra. A sensação é realmente musical, é um jogo coreográfico e com certeza os brasileiros vão se sobressair com seu senso de música.

Alguns elementos da sequência acima, como a ausência de idiomas reconhecíveis, são extremamente familiares, principalmente para aqueles que jogaram Valiant Hearts. Cogitei se essa decisão no design foi tomada para tornar a experiência o mais abrangente possível já que isso remove a barreira do idioma. O produtor confirmou minhas suspeitas.

Sim, [fizemos] isso para ser universalmente compreensível, eu gostava de assistir filmes de Charlie Chaplins ou aqueles de Jacques Tati quando era criança. Você tinha que entender a história por si mesmo, olhando mais atentamente para a imagem e ouvindo a faixa de música de uma forma diferente. Eu quero que esse sentimento forte esteja em Lost in Harmony, [para as pessoas] descobrirem a história sozinha, em vez de ouvir alguém a explicando por diálogos.

Ainda sobre o aspecto emotivo, o criador discorre brevemente sobre os sentimentos que tentou passar para o jogo. “Haverá uma vasta gama de emoções e isso é o que torna Lost in Harmony único em comparação com jogos musicais. Esta é uma odisseia, a história do jovem Kaito que tem medo de crescer e se tornar um adulto. E conhecendo Valiant Hearts, as pessoas se perguntarão se elas vão chorar novamente no final…

LostinHarmony_KeyArt

O engraçado é que este minigame que eu criei com os Rabbids veio a se tornar Just Dance

Outro ponto em comum com o título que se passa durante a Primeira Guerra Mundial está na semelhança com algumas fases “musicais”, como a sequência dos táxis. Ao ser questionado se a faísca para Lost in Harmony nasceu durante a produção de Valiant Hearts, Fanise deixa claro que a inserção de elementos musicais em suas criações sempre foi uma constante.

Mesmo antes, quando criei os minigames musicais do [Rayman] Raving Rabbids, sempre quis adicionar jogabilidade musical em nossas criações. O engraçado é que este minigame que criei para os Rabbids veio a se tornar Just Dance.

Fanise continua sua explicação e levanta um ponto interessante sobre a recepção que recebeu sobre as partes musicais do seu projeto anterior. “Eu também consegui adicionar algo parecido em Valiant Hearts, com as sequências de táxi. Algumas pessoas acharam que isso era estranho considerando o tema sério de Primeira Guerra Mundial, mas eu queria acrescentar mais momentos alegres como realmente existiu durante esse tempo. Não foram quatro anos de pura tristeza e desespero. Então sim, se você gostou das sequências de táxi em Valiant Hearts, você vai adorar Lost in Harmony.”

Se você gostou das sequências de táxi em Valiant Hearts, você vai adorar Lost In Harmony

Durante nossa troca de e-mails, Fanise compartilhou que algumas das referências para a criação de Lost in Harmony foram longas metragens dos diretores japoneses Akira Kurosawa Hayao Miyazaki, mais especificamente Sonhos de Kurosawa e O Castelo no Céu de Miyazaki.

A estrutura e alguns dos eventos épicos do jogo foram inspirados na obra de Kurosawa enquanto que a paleta de cores, a alusão de um sonho e dois jovens vivendo uma aventura fantástica são influências diretadas do trabalho de Miyazaki.

Outro aspecto interessante é que o compositor Wyclef Jean (músico vencedor de três Grammy) está diretamente envolvido na produção de Lost in Harmony. Fanise conta como essa parceria teve início. “Eu estava buscando parceiros de música e um contato nos Estados Unidos me disse que esse projeto poderia interessar o Wyclef Jean. Meu contato conversou com ele sobre a idéia e boom, ele aceitou.” 

Fanise continua e declara sua realização por criar algo juntamente com um músico que admirava quando criança. “É um verdadeiro prazer trabalhar com artistas tão talentosos, eu ouvia muito as músicas da banda The Fugees quando era criança, então você pode imaginar minha felicidade de trabalhar com ele agora .

A vida é curta, então é melhor gastá-la da melhor maneira

Desenvolvido em Unity, Lost in Harmony está previsto para ser lançado em 2016 para tablets, e a equipe está trabalhando para adaptá-lo para outras plataformas incluindo a Apple TV.

Perguntei a Fanise que conselho ele daria para quem sonha em se tornar um desenvolvedor de games. Eu diria que, aprenda a programar, aprenda a Unity, faça algo que funcione e mostre para o mundo. Caso se destaque, então você saberá que pode tornar isso em seu trabalho para o resto de sua vida. Como disse Steve Jobs, a vida é curta, então é melhor gastá-la da melhor maneira .

Para encerrar nossa conversa, questionei o desenvolvedor sobre os projetos futuros após Lost in Harmony. Fiquei feliz em saber que o futuro reserva boas oportunidades para a Digixart. “Vou viajar para o Reino Unido depois de Tóquio para me encontrar com uma equipe famosa com quem iremos colaborar em um projeto muito significativo no próximo ano. Mas é muito cedo para falar mais sobre isso.”

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