Murdered: Soul Suspect

Análise originalmente publicada na PlayTV em 2014


O cenário desse jogo investigativo se passa em Salem, uma cidade com um passado intimamente ligado com o oculto. Esse município, localizado no estado americano de Massachusetts, foi palco de tribunais que perseguiram “bruxas” no final do século XVII. Apesar da simplicidade, tanto nos enigmas quanto nos desafios, Murdered: Soul Suspect é competente em sua proposta e oferece um universo com intrigantes histórias de fantasmas.

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Uma produtora com um passado negro

A Airtight Games é a responsável pela produção desse título. Em 2005, essa empresa trabalhou com a Ageia Corporation em uma demonstração de um chip dedicado para realizar cálculos em uma engine de física. Essa experiência foi utilizada pela Airtight para a produção de Dark Void (2010) – o primeiro AAA do estúdio, publicado pelaCapcom – e um polêmico jogo que oferece uma mecânica interessante de jetpack e não muito além disso. Na época de seu lançamento, esse game foi altamente criticado, tanto pela imprensa quanto pelo público.

Dois anos após essa “mancha” no currículo, o estúdio lançou Quantum Conundrum, título que teve a supervisão de Kim Swift, uma das criadores do aclamado Portal. Ao contrário de Dark Void, esse jogo foi bem aceito tanto pela crítica quanto pelos gamers, e foi o primeiro título da empresa publicado pela Square Enix, uma parceria que continua no game analisado nesse texto.

Um espírito detetive ou um fantasma investigador? 

Se em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o autor decide contar sua história após estar morto, em Murdered: Soul Suspect, a jornada do protagonista Ronan O’Connor também tem início após seu falecimento. O ex-presidiário – reformado e trabalhava ao lado da lei – não possui outra alternativa senão investigar o mistério por trás de sua morte. Só assim, O’Connor irá resolver seu assunto pendente nesse mundo e poderá seguir adiante para encontrar descanso na pós-vida com sua esposa.

O passado criminoso do personagem principal é explicado logo no início da história, quando o policial é arremessado pela janela de uma casa. Quando o detetive se espatifou no chão e ainda tinha um respingo de vida, ele foi alvejado com sete balas por um assassino em série. O mistério que o detetive deve solucionar ao longo do jogo é a identidade desse homicida que assombra a cidade de Salem.

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Após a morte do protagonista, tem início a apresentação do universo sobrenatural do jogo, quando você passa a conhecer as regras do game. Por ser um fantasma, Ronnan consegue transpassar (quase) todos os objetos. O detetive não consegue atravessar paredes para entrar em construções de Salem, e a justificativa para isso faz total sentido.

Dada o histórico negro da cidade, as construções agora estão contaminadas e portanto não permitem que você as atravesse a seu bel-prazer. Além dessa limitação, o início da história apresenta outro elemento sobrenatural interessante. Ao longo da cidade inteira, você encontra “prédios fantasmas”, partes de construções de 1690 e uns quebrados, período que aconteceram as perseguições das bruxas, o marco negro na história do município. O contraste de vagar por aí e ver prédios novos mesclados com cabanas de madeira, pelourinhos ou altares onde pessoas eram queimadas vivas, faz com que a jornada de O’Connor seja mais crível.

Histórias de fantasmas em uma cidade assombrada 

Uma coisa que notei enquanto explorava a cidade até memorizar os caminhos pelas ruas é que o jogo não possui um mapa. A ausência de algo tão primário quanto isso foi quando Murdered: Soul Suspect começou a me conquistar (na realidade, você pode acessar um mapa digital através do site oficial do jogo). Não possuir um guia faz com que você se force a explorar os ambientes para encontrar seu caminho e acaba encontrando alguns dos segredos. E são muitos os itens escondidos, sejam pistas sobre o “assassino do sino”, codinome dado pela mídia para o vilão; marcações nas paredes deixadas por sua guia, uma menina fantasma; fatos sobre Salem; verdades sobre a vida de Ronnan; entre outros. Dentre estes colecionáveis, o mais interessante deles é quando você está explorando os locais durante sua investigação. Cada construção possui itens assombrados escondidos pelo mapa e caso você ache todos, irá liberar a história de origem desses artefatos amaldiçoados.

Tirando a exploração dos cenários, você usa o poder de dedução ao longo das investigações. Ronan deve explorar as cenas dos crimes para coletar as pistas dos acontecimentos. Para fazer isso, além de vasculhar os locais dos crimes, suas habilidades de fantasma permitem que você possua alguém, podendo influenciar, ouvir e ver o que a pessoa esteja observando. Quando tiver juntado todas as dicas do ocorrido, poderá tentar deduzir o que aconteceu. Infelizmente, o raciocínio necessário para ligar os pontos nessas partes é simplista demais, e por conta disso não traz uma sensação de desafio superado, de mistério resolvido. E mesmo que você falhe nas suas deduções, não há punição real por seus erros.

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Além dessa resolução desses enigmas, a única interação agressiva (e opcional do jogo) é ao eliminar os demônios, criaturas maléficas espalhadas pelos cenários que conseguem drenar sua alma. Você pode se esconder deles e seguir seu caminho, ou surpreendê-los para libertar as almas presas nos demônios. Caso seja descoberto, sua única alternativa é fugir e se esconder nos resquícios de almas abandonadas.

O maior mérito desse jogo está em sua ousadia. Ele é um título onde a história gira em torno de um assassinato e em nenhum momento você usa uma arma de fogo, ou um armamento similar do além. O foco de Soul Suspect está em sua exploração, museus, casas abandonadas, manicômios entre outros locais e nas histórias espalhadas por Salem. Seja de outros fantasmas, dos mistérios em objetos esquecidos há séculos ou ainda dos easter-eggs espalhados como Deus Ex, Tomb Raider e Just Cause 2 só para citar alguns.

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Murdered: Soul Suspect é um ótimo exemplo de um game que tinha tudo para ser um fiasco – um título ambicioso de uma produtora de pouco renome -, e no entanto surpreende com um universo interessante e uma intrigante narrativa que incentiva a exploração. Essa corajosa obra merece sua atenção e deve ser experimentada pelos apreciadores de uma boa história de fantasma.

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