Muleta

Esse conto de ficção científica foi publicado no meu Medium em maio de 2016.

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An english version of this sci-fi short story can be read on my Medium.


I

Fez-se um clarão.

O autômato, R0b era seu nome, passou a enxergar lentamente a paisagem árida enquanto seu sistema rodava a tediosa rotina de inicialização para verificar a integridade das unidades de armazenamento.

Esse procedimento era realizado no caso de um desligamento indevido do sistema, normalmente causado por choque físico ou interferência eletromagnética. Infelizmente, as explosões solares se tornaram mais frequentes nas últimas décadas.

Após a eternidade dos 42 micro-segundos necessários para realizar esse processo, R0b percebeu que estava sozinho. Todos os indivíduos orgânicos e centenas de seres robóticos simplesmente desapareceram sem deixar nenhum vestígio.

Não havia nenhum sinal das tropas nas proximidades, não importava a direção para onde seu sensor ótico era apontado, escaneando em busca de sinais de vida (metálica ou humana). “Essas malditas tempestades de silício comprometem meus sensores de localização”, reclamou para si. Enquanto vasculhava os arredores desérticos em busca de alguma pista, R0b identificou uma bandeira vermelha, esvoaçando a cerca de 30 quilômetros marcando a posição de uma estação de pesquisa abandonada.

O procedimento para determinar a melhor rota até o destino teve início e enquanto R0b se preparava para começar a jornada, ele notou algo peculiar: seus membros inferiores estavam completamente mutilados. “Hum, por essa eu não esperava.”


II

Em condições normais, a jornada não demoraria mais do que algumas horas, segundo o cálculo da rota que foi realizado levando em conta um robô com mobilidade total e não um autômato com membros inferiores completamente danificados. O comprometimento das pernas do andróide aumentou a duração do trajeto para cerca de meio dia, mais de dez horas do que o estimado inicialmente.

O sol estava no pico de sua irradiação quando o sistema de navegação informou duas possíveis rotas até o destino. A diferença entre elas estava no risco do caminho mais rápido que passava por uma encosta estreita de um desfiladeiro. Após alguns mili-segundos de processamento, R0b começou o caminho mais longo, porém mais seguro. “Melhor prevenir do que remediar, ainda mais por não ter peças sobressalentes comigo.” Enquanto continuava a se arrrastar, ele triangulou a melhor posição para a pausa de recarregamento das baterias solares que já entravam na reserva de sua carga.

A dinâmica de marchar (ou trabalhar) o dia inteiro e só descansar uma noite por mês era uma das maiores diferenças entre as tropas orgânicas e os soldados automatizados. A superioridade física e rapidez no raciocínio lógico eram outros pontos que os robôs levavam vantagem, enquanto que a inspiração e o improviso eram as características humanas derradeiras que as máquinas ainda não conseguiram replicar. Não importava quantas vezes tentassem.

Cinco horas se passaram desde que R0b despertou e saiu se arrastando com destino à estação de pesquisa. O autômato avistou uma clareira pelo amanhecer e se preparou para começar o processo de repouso e recarga, mas algo incomum despertou sua atenção. A pequena expansão de terreno rochoso escondia algo nefasto.

O que aconteceu aqui? R0b se indagou enquanto absorvia a visão putrefata. Vísceras queimadas, unidades de armazenamento corrompidas, rifles de assalto, espingardas de plasma, canhões portáteis, entre outros itens bélicos jogados pelo chão arenoso indicavam o confronto que ocorreu nesse lugar. De acordo com todos os sensores do autômato que passaram a escanear os arredores instantaneamente, o embate não deixou sobreviventes.

O mais estranho era que, segundo o estado das arcadas ósseas e metálicas, essa batalha ocorreu há centenas de anos. Mesmo após esse período, as vibrações no ambiente eram tão perturbadoras que até o andróide levou segundos para absorver o que tinha acontecido antes de se arrastar até o epicentro do acontecido em busca de algo que pudesse ser usado.

Passado esse momento de contemplação, os sensores do autômato deram início à sub-rotina de compatibilidade e identificaram peças sobressalente que seriam úteis para o robô se consertar parcialmente. Não havia nenhuma unidade igual a R0b, mas um braço cibernético arrancado por uma explosão em um modelo antigo seria suficiente para substituir uma das pernas do autômato que rastejava.

O sensor identificou também que uma espingarda de plasma descartada por não ter mais munição serviria como muleta. No final do dia, R0b terminaria sua jornada até a estação de pesquisa usando suas partes recém instaladas. “Agora falta pouco” foi o último pensamento do autômato antes de entrar em stand-by para recarregar suas baterias no pico solar.


III

A noite estava na sua parte mais sombria quando R0b despertou e o céu estrelado foi a prímeira coisa identificada por seus sensores óticos. A visão noturna foi acionada automaticamente e a rotina de locomoção teve início, já levando em consideração as atualizações corpóreas como o braço de outro modelo acoplado onde era sua perna esquerda e o rifle usado para apoiar o lado direito do robô.

Após horas marchando, R0b encarava de perto a esvoaçante bandeira vermelha após chegar na estação de pesquisa. Dentro de alguns milisegundos, a construção foi identificada como uma base de uma missão de exploração de séculos atrás, décadas antes do incidente na cratera segundo a estimativa da unidade de processamento do autômato.

Se apoiando no apoio improvisado, o robô entrou na instalação e começou a escanear o ambiente por qualquer vestígio, humano ou robótico. Sem sucesso, a próxima busca foi por equipamentos de transmissão abandonados. Com um pouco de sorte, seria possível achar um transmissor de alta frequências deixado para trás.

Encoberto por uma espessa camada de uma mistura de poeira com areia estava um transmissor antigo meio enferrujado, mas que parecia estar minimamente funcional. R0b encontrou peças espalhadas pelo sala principal da estação e após um rápido conserto, iniciou a emissão ininterrupta de um sinal de ajuda. Pelos cálculos do andróide, demorariam alguns dias até o sinal ser captado por alguém. O chiado do ruído espacial, resultado da ausência de uma conexão estabelecida, encheu a base confortando um pouco o robô deformado.

Agora só me basta esperar…” R0b mentiu para si, enquanto instintivamente avaliava qual seria a próxima tarefa a ser executada. Outra característica marcante dos soldados automatizados é a incapacidade de descansar. Embora essa inquietude seja uma vantagem no campo de batalha, esse hábito é extremamente irritante no convívio com outras espécies orgânicas.

Enquanto explorava os outros ambientes, o robô descobriu um laboratório ótico repleto de lentes espalhadas por todas as bancadas e imediatamente compreendeu que a estação era a primeira etapa para a construção de um telescópio. Curioso sobre quais outros segredos a base podia abrigar, R0b continuou sua busca enquanto a emissão do sinal de ajuda ainda não tinha trazido resultados.

Não demorou muito até R0b encontrar os restos do telescópio escondido. Se ele tivesse sentimentos compreensíveis pelos humanos, felicidade seria a melhor forma de descrever como o autômato se sentiu nesse momento.

Quase suspirando, o robô pensou sozinho. “Agora posso pelo menos olhar para casa.” E começou a consertar os danos extensos no telescópio para que pudesse vislumbrar seu planeta natal. O cálculo da estimativa até o término da manutenção era de duas semanas.

Agora que tinha outro objetivo em mente, o ruído do transmissor se tornou quase imperceptível. Uma quinzena se passou e o robô estava terminando os últimos ajustes para acoplar sua unidade ótica ao telescópio.

O chiado continuava audível mesmo que R0b não notasse mais. A inicialização da conexão com o telescópio teve início e o autômato começou a busca pelo quadrante do seu planeta natal, mas não reconheceu o que viu.

O primeiro sinal de inconsistência foi que o satélite natural não estava orbitando como de costume. Essa descoberta foi seguida de outra mais aterrorizante. O chiado se mostrou presente novamente. Seu barulho agora inundava a estação e parecia muito mais alto do que de costume, inebriando os sensores do robô.

A Terra estava despedaçada. O desastre exibido pela imagem do telescópio foi identificado como o resultado de um conflito nuclear. Além do dano à estrutura física no lar do robô, as descargas eletromagnéticas fritaram todos as antenas e satélites dos planetas vizinhos.

R0b estava sozinho na galáxia. Sem conseguir compreender totalmente o significado disso, o autômato ficou sem reação. Simplesmente permaneceu lá sentado.

E o chiado do transmissor continuou. Para todo o sempre.


A imagem de destaque desse conto foi fotografada pela Curiosity em sua missão para Marte

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